E se o sol não brilhar ou houver produção de energia em excesso?
Essa é a primeira questão que precisa ser respondida antes de qualquer grande expansão da energia solar.
Painéis fotovoltaicos não produzem eletricidade durante a noite e geram menos em dias muito nublados. Em determinados horários ensolarados, por outro lado, milhares de instalações podem produzir mais energia do que o sistema consegue consumir ou transportar.
A solução brasileira não seria depender exclusivamente do sol. O país poderia aproveitar a combinação entre energia solar e hidrelétricas com reservatórios.
Durante as horas de forte geração solar, parte das hidrelétricas poderia reduzir sua produção. Com menos água passando pelas turbinas naquele momento, os reservatórios preservariam uma quantidade maior para ser utilizada durante a noite, em dias nublados, nos horários de maior consumo ou em períodos futuros de menor geração renovável.
A hidrelétrica funcionaria, nesse caso, como uma fonte flexível. Ela não armazenaria diretamente a eletricidade produzida pelos painéis, mas economizaria água enquanto o sol estivesse atendendo parte da demanda.
Quando a geração solar diminuísse no fim da tarde, as hidrelétricas poderiam aumentar gradualmente sua produção para compensar a redução.
O Operador Nacional do Sistema Elétrico reconhece que o crescimento das fontes solares e eólicas aumenta a necessidade de fontes capazes de alterar rapidamente sua produção. Segundo o ONS, as hidrelétricas possuem um papel especialmente importante porque são controláveis e podem responder às variações da demanda e da geração renovável. (ONS)
Essa complementaridade é uma das principais vantagens do Brasil em comparação com países que dependem fortemente de carvão, gás natural ou usinas nucleares menos flexíveis.
Entretanto, a solução não é ilimitada.
Nem todas as hidrelétricas brasileiras possuem grandes reservatórios. Muitas operam a fio d’água, utilizando o fluxo disponível no rio e apresentando capacidade limitada de armazenar água.
As usinas também precisam respeitar vazões mínimas, condições ambientais, navegação, abastecimento humano e outros usos dos rios. Durante uma seca prolongada, os reservatórios podem estar baixos justamente quando o sistema mais necessita deles.
Por isso, a expansão solar também precisaria ser acompanhada por baterias, linhas de transmissão, integração entre regiões, programas de consumo inteligente, usinas de biomassa e outras fontes capazes de fornecer energia quando necessário.
O que acontece quando há energia solar demais?
Em alguns momentos, o problema não é a falta de energia, mas o excesso.
Se milhões de painéis estiverem produzindo ao meio-dia e não houver consumo, transmissão ou armazenamento suficientes, o operador pode ser obrigado a limitar a geração. Esse procedimento é conhecido como *curtailment* ou corte de geração.
O Brasil já registra restrições em usinas solares e eólicas por falta de capacidade de transmissão, baixa demanda ou necessidade de manter a estabilidade do sistema.
No Plano da Operação Energética 2026–2030, o ONS avaliou cenários nos quais as restrições máximas poderiam alcançar até 40 gigawatts em determinados momentos. O órgão também destacou que baterias, expansão da rede e fontes flexíveis serão necessárias para acompanhar o crescimento da geração solar. (ONS)
Portanto, instalar painéis sem ampliar a infraestrutura poderia criar uma situação contraditória: o Brasil teria energia barata disponível, mas seria obrigado a desligar parte das usinas porque não conseguiria utilizar ou transportar a produção.
A proposta precisaria atuar simultaneamente em quatro áreas:
* geração solar;
* reservatórios e fontes flexíveis;
* transmissão e distribuição;
* armazenamento e aumento do consumo nos horários de maior produção.
Indústrias poderiam receber incentivos para deslocar parte de suas atividades para o período diurno. Sistemas de bombeamento de água, refrigeração, produção de hidrogênio, recarga de veículos e armazenamento térmico também poderiam utilizar a eletricidade excedente.
Uma proposta de compra em grande escala
O Brasil poderia negociar com a China um programa de fornecimento de painéis solares, inversores, sistemas de armazenamento e outros equipamentos em grandes volumes.
Em vez de milhares de municípios, empresas e consumidores negociarem pequenas quantidades individualmente, o país organizaria compras coordenadas por meio de leilões, consórcios públicos, cooperativas e contratos de fornecimento de longo prazo.
Uma encomenda de grande volume daria aos fabricantes maior previsibilidade. Eles poderiam reservar linhas de produção, negociar matérias-primas, organizar o transporte marítimo e reduzir o custo por unidade.
O desconto não viria apenas da quantidade de painéis. Também poderia ocorrer na contratação de seguros, fretes, peças de reposição, assistência técnica e garantias.
Uma primeira fase poderia concentrar as compras em projetos públicos e sociais, como:
* escolas;
* hospitais;
* universidades;
* conjuntos habitacionais;
* prédios públicos;
* sistemas de abastecimento de água;
* pequenas propriedades rurais;
* cooperativas;
* comunidades isoladas;
* estacionamentos e terminais de transporte.
Depois da fase inicial, o modelo poderia ser aberto para empresas e consumidores residenciais por meio de cooperativas de compra.
O governo não precisaria distribuir equipamentos gratuitamente para todos. Seu principal papel seria negociar condições gerais, fiscalizar a qualidade, oferecer financiamento e reunir compradores suficientes para conseguir preços menores.
Por que negociar com a China?
A China ocupa uma posição dominante na indústria solar mundial.
Segundo a Agência Internacional de Energia, a participação chinesa supera 80% nas principais etapas de fabricação dos painéis, incluindo produção de silício processado, lingotes, lâminas, células e módulos. Essa concentração ajudou a reduzir os preços internacionais, mas também criou uma forte dependência global de um único fornecedor. (IEA)
A escala da indústria chinesa permitiria ao Brasil adquirir grandes quantidades por preços competitivos. Além dos painéis, empresas chinesas possuem presença relevante na fabricação de inversores, baterias, transformadores e equipamentos de transmissão.
Brasil e China já possuem uma base institucional que poderia ser utilizada para aprofundar essa cooperação.
Em maio de 2025, o Ministério de Minas e Energia brasileiro e a Administração Nacional de Energia chinesa assinaram um protocolo de intenções envolvendo geração renovável, armazenamento, transmissão, mobilidade de baixo carbono e intercâmbio tecnológico. O documento também menciona investimentos em sistemas de transmissão de alta tensão e construção de empreendimentos renováveis.
Uma negociação específica para compras em escala seria, portanto, uma possível extensão dessa cooperação. Ela não deve ser apresentada como um acordo já concluído, mas como uma proposta que exigiria negociação comercial, aprovação regulatória e definição das responsabilidades de cada país.
O Brasil já possui uma grande base solar
A energia solar deixou de ser uma fonte pequena dentro do sistema brasileiro.
Segundo o Balanço Energético Nacional 2026, a geração solar centralizada e distribuída alcançou 88,1 terawatt-hora em 2025, um crescimento de 24,7% em relação ao ano anterior.
A capacidade instalada chegou a aproximadamente 64,8 gigawatts. Somadas, as fontes solar e eólica responderam por 26,4% da geração elétrica brasileira em 2025. A participação total das fontes renováveis na matriz elétrica foi de 86,8%. (epe.gov.br)
Esses números mostram que o Brasil já possui experiência técnica, empresas instaladoras, consumidores interessados e condições naturais favoráveis.
O novo acordo não começaria do zero. Seu objetivo seria reduzir custos, ampliar o acesso e coordenar a expansão para evitar que a infraestrutura ficasse atrás do crescimento dos painéis.
Como funcionaria a compra massiva
Uma alternativa seria criar um programa com encomendas anuais, evitando uma única compra gigantesca.
O governo poderia publicar um cronograma para os três ou cinco anos seguintes, informando a quantidade aproximada de equipamentos que seria adquirida em cada etapa.
Fabricantes chineses e empresas instaladas no Brasil apresentariam propostas contendo:
* preço por unidade;
* eficiência mínima;
* vida útil estimada;
* degradação anual;
* prazo de garantia;
* capacidade de fornecimento;
* assistência técnica;
* estoque de peças;
* origem dos componentes;
* condições trabalhistas e ambientais;
* possibilidade de fabricação parcial no Brasil;
* compromisso de reciclagem.
Os contratos poderiam estabelecer preços progressivamente menores conforme o volume efetivamente adquirido.
Uma encomenda inicial mais limitada permitiria testar os equipamentos e a logística. As etapas seguintes seriam liberadas apenas após a comprovação da qualidade, da entrega e do desempenho dos projetos instalados.
Isso evitaria que o Brasil comprasse milhões de painéis de um único modelo antes de verificar sua durabilidade em diferentes regiões do país.
Redução de impostos precisaria ser seletiva
A redução de impostos poderia diminuir o preço final dos projetos, mas uma isenção indiscriminada também poderia prejudicar fabricantes brasileiros e aumentar a dependência externa.
A política comercial brasileira elevou a alíquota geral de importação dos módulos fotovoltaicos para 25%. Ao mesmo tempo, foram estabelecidas cotas de importação com tarifa reduzida ou zerada em determinados volumes e períodos.
A justificativa para a tarifa mais alta foi proteger a produção nacional diante da forte concorrência dos equipamentos importados, especialmente os provenientes da China. Documentos da Câmara de Comércio Exterior também registram a existência de cotas decrescentes, incluindo um limite previsto para o período entre julho de 2026 e junho de 2027. (Serviços e Informações do Brasil)
Um eventual acordo Brasil–China não precisaria simplesmente eliminar todos os impostos.
Uma solução mais equilibrada seria criar uma redução temporária e condicionada para equipamentos destinados ao programa nacional. Em troca, os fornecedores teriam de cumprir requisitos de preço, qualidade, garantia, reciclagem e transferência de tecnologia.
Componentes que não fossem produzidos em quantidade suficiente no Brasil poderiam receber impostos menores. Já os itens fabricados nacionalmente em condições competitivas manteriam proteção parcial.
Também seria possível reduzir tributos sobre:
* inversores;
* controladores;
* baterias;
* sistemas de fixação;
* equipamentos de segurança;
* medidores inteligentes;
* transformadores;
* máquinas utilizadas na fabricação nacional;
* matérias-primas ainda indisponíveis no país;
* serviços de instalação e manutenção.
A redução deveria alcançar toda a cadeia, e não apenas o painel importado.
Caso o governo reduzisse o imposto do produto acabado, mas mantivesse tributos elevados sobre peças e matérias-primas utilizadas pela indústria brasileira, o equipamento importado poderia ficar artificialmente mais barato do que aquele montado no país.
Comprar barato sem destruir a produção nacional
A maior crítica a um programa desse tipo seria o risco de enfraquecer a indústria brasileira.
Se todos os painéis fossem importados prontos e sem contrapartidas, o país poderia reduzir temporariamente os preços, mas perderia a oportunidade de gerar empregos industriais e desenvolver tecnologia.
O acordo deveria combinar importação imediata com nacionalização gradual.
Nos primeiros anos, grande parte dos módulos poderia vir pronta da China para atender rapidamente à demanda. Ao mesmo tempo, empresas chinesas receberiam incentivos para instalar unidades de montagem, produção de estruturas, inversores, baterias e outros componentes no Brasil.
Os contratos poderiam exigir percentuais crescentes de produção nacional.
Por exemplo, uma empresa teria permissão para fornecer grandes quantidades importadas inicialmente, desde que apresentasse um plano verificável para:
* abrir ou ampliar uma fábrica no Brasil;
* contratar trabalhadores brasileiros;
* treinar técnicos;
* utilizar fornecedores locais;
* criar centros de manutenção;
* transferir parte da tecnologia;
* produzir peças de reposição;
* financiar pesquisa em universidades;
* recolher equipamentos ao fim da vida útil.
A exigência precisaria ser realista. Obrigar a produção imediata de toda a cadeia no Brasil poderia elevar demais os custos e afastar fornecedores.
Por outro lado, permitir importações ilimitadas sem qualquer contrapartida consolidaria a dependência.
O acordo não deveria depender de uma única empresa
Mesmo dentro da China, o Brasil deveria contratar diferentes fabricantes.
Uma compra concentrada em uma única empresa criaria riscos de atraso, defeitos em série, dependência de peças específicas e perda de poder de negociação.
Os lotes poderiam ser divididos entre fornecedores que cumprissem padrões técnicos comuns.
Todos os painéis e inversores deveriam utilizar conexões, protocolos e características compatíveis. Assim, uma empresa brasileira não ficaria obrigada a comprar peças de um único fabricante durante décadas.
O programa também deveria reservar espaço para fabricantes brasileiros e fornecedores de outros países.
A China poderia ser a principal parceira devido à escala industrial, mas não deveria se transformar na única opção possível.
Financiamento pode ser mais importante do que o preço
Um painel barato não resolve o problema se o consumidor não tiver dinheiro para comprá-lo.
Para muitas famílias e pequenas empresas, a maior dificuldade não é o valor total do equipamento, mas a necessidade de realizar um investimento elevado de uma só vez.
Bancos públicos, cooperativas de crédito e instituições privadas poderiam oferecer financiamento de longo prazo. A parcela teria de ser calculada para permanecer próxima ou abaixo da economia gerada na conta de luz.
O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social, a Caixa Econômica Federal, o Banco do Brasil, bancos regionais e cooperativas poderiam criar linhas específicas para diferentes públicos.
Os juros precisariam ser compatíveis com a vida útil dos equipamentos. Uma linha cara e curta poderia consumir toda a economia obtida pela compra em escala.
Também seria necessária uma análise técnica antes da concessão. Nem todo telhado possui orientação, estrutura ou incidência solar adequadas.
Financiar uma instalação mal dimensionada apenas criaria dívida para o consumidor.
Famílias de baixa renda poderiam participar
O modelo tradicional de geração solar beneficia principalmente quem possui imóvel próprio, telhado disponível e capacidade de conseguir crédito.
Moradores de apartamentos, famílias de baixa renda e inquilinos normalmente encontram mais dificuldades.
Para ampliar o benefício, parte dos equipamentos poderia ser direcionada à geração compartilhada.
Uma usina solar atenderia diversas famílias, cooperativas ou unidades públicas. Os créditos seriam divididos entre os participantes conforme as regras da geração distribuída.
A ANEEL permite que consumidores se organizem em consórcios, cooperativas, condomínios e outras formas de associação para compartilhar a energia produzida por uma central de micro ou minigeração. (Serviços e Informações do Brasil)
Programas sociais poderiam instalar painéis em escolas, postos de saúde e conjuntos habitacionais. A economia na conta pública poderia ajudar a financiar a manutenção e a expansão do próprio programa.
Benefícios para o campo
Pequenas e médias propriedades rurais poderiam ser algumas das principais beneficiadas.
A energia solar pode alimentar:
* bombas de irrigação;
* ordenhadeiras;
* sistemas de refrigeração;
* secadores;
* cercas elétricas;
* iluminação;
* processamento de alimentos;
* armazenamento refrigerado;
* oficinas;
* residências;
* sistemas de comunicação.
Grande parte dessas atividades ocorre durante o dia, coincidindo com o período de maior geração solar.
Isso reduz a necessidade de grandes baterias em várias aplicações.
Em locais isolados, painéis combinados com armazenamento também poderiam substituir parte do diesel utilizado em geradores.
A redução do custo energético aumentaria a competitividade de pequenos produtores, especialmente daqueles localizados longe dos grandes centros consumidores.
Indústrias poderiam aproveitar o pico diurno
A geração solar é mais intensa entre o fim da manhã e o início da tarde.
Indústrias capazes de reorganizar seus horários poderiam concentrar processos de alto consumo nesse período.
Bombas, sistemas de refrigeração, compressores, produção de gelo, tratamento de água, carregamento de baterias e algumas linhas automatizadas poderiam funcionar com maior intensidade quando houvesse energia abundante.
Em troca, empresas que ajudassem a equilibrar o sistema poderiam receber tarifas mais baixas.
Esse tipo de política é conhecido como resposta da demanda. Em vez de produzir mais energia para acompanhar o consumo, parte do consumo é ajustada para acompanhar a disponibilidade de energia.
A medida ajudaria a reduzir os cortes de geração e diminuiria a necessidade de construir armazenamento para toda a produção excedente.
Baterias seriam necessárias, mas não em todos os projetos
Não seria economicamente eficiente instalar uma grande bateria em cada residência.
Em áreas conectadas ao Sistema Interligado Nacional, a rede já permite que diferentes fontes se complementem. Durante o dia, a energia solar reduz a necessidade de outras usinas. À noite, hidrelétricas, eólicas, biomassa, termelétricas e outras fontes atendem à demanda.
Baterias residenciais fariam mais sentido em locais com interrupções frequentes, sistemas isolados ou consumidores que necessitam de segurança energética.
Nas grandes cidades, poderia ser mais barato instalar baterias maiores em subestações, indústrias, hospitais e pontos estratégicos da rede.
Essas unidades armazenariam excedentes durante o dia e devolveriam energia no início da noite, quando a geração solar cai e o consumo residencial costuma permanecer elevado.
As baterias não substituiriam os reservatórios, mas aumentariam a velocidade de resposta do sistema.
Transmissão precisa acompanhar os painéis
Boa parte do potencial solar brasileiro está em regiões distantes dos maiores centros consumidores.
Construir uma usina de grande porte sem garantir conexão pode deixar o projeto pronto, mas incapaz de entregar toda a produção.
O acordo com a China deveria incluir não apenas painéis, mas também investimentos em transmissão, subestações, transformadores, sistemas digitais e controle da rede.
O protocolo energético assinado pelos dois países em 2025 já cita cooperação em sistemas de transmissão de alta tensão e empreendimentos de geração renovável.
Linhas de corrente contínua em alta tensão poderiam transportar grandes quantidades de energia por longas distâncias com perdas reduzidas.
Entretanto, essas obras exigem planejamento ambiental, desapropriações, licenciamento e vários anos de construção.
Por isso, o cronograma das usinas deveria acompanhar o cronograma da transmissão. Não seria suficiente importar rapidamente milhões de painéis e deixar a infraestrutura para uma etapa futura.
A rede de distribuição também precisaria ser modernizada
A geração instalada em telhados cria desafios diferentes daqueles provocados pelas grandes usinas.
Em bairros com muitos painéis, a eletricidade pode começar a circular no sentido contrário ao tradicional. Em vez de apenas receber energia da subestação, a rede passa a receber produção das casas e empresas.
Transformadores e cabos antigos podem não suportar esse fluxo.
Também podem surgir problemas de tensão quando a geração local é muito superior ao consumo.
As distribuidoras precisariam instalar:
* transformadores adequados;
* medidores inteligentes;
* sistemas automáticos de controle;
* equipamentos de proteção;
* bancos de baterias em locais estratégicos;
* ferramentas de previsão;
* comunicação em tempo real.
Sem esses investimentos, a expansão poderia resultar em recusas de novas conexões ou limitações à energia injetada pelos consumidores.
A conta de luz não cairia imediatamente para todos
Painéis mais baratos reduziriam o custo de novos projetos, mas isso não significa que a tarifa nacional cairia automaticamente.
A conta de luz inclui geração, transmissão, distribuição, encargos, impostos, perdas e contratos já existentes.
Muitas usinas vendem sua energia por meio de contratos de longo prazo. A entrada de nova geração mais barata não elimina imediatamente os pagamentos assumidos anteriormente.
Além disso, as obras de transmissão e modernização da rede possuem custos que também podem aparecer nas tarifas.
O benefício seria progressivo.
Consumidores com geração própria perceberiam economia direta, enquanto os demais poderiam se beneficiar ao longo dos anos por meio de leilões mais baratos, menor uso de termelétricas e redução da exposição a combustíveis fósseis.
Para garantir que a redução de custos chegasse à população, os contratos e tarifas precisariam ser transparentes.
Menor dependência das termelétricas
Mesmo possuindo uma matriz majoritariamente renovável, o Brasil ainda utiliza termelétricas para garantir o abastecimento.
Em 2025, a geração termelétrica aumentou 12,3%, chegando a 169,9 terawatt-hora. O consumo de gás natural destinado à produção de eletricidade cresceu 22,7% em comparação com o ano anterior. (epe.gov.br)
A ampliação solar, combinada com reservatórios bem administrados, poderia reduzir a necessidade de acionar algumas termelétricas durante o dia.
Isso diminuiria o consumo de gás, carvão, óleo combustível e diesel.
Entretanto, parte das termelétricas continuaria necessária como reserva de segurança, especialmente durante secas, falhas na transmissão ou períodos de baixa geração solar, eólica e hidráulica simultaneamente.
A economia dependeria de quanto tempo essas usinas permaneceriam desligadas e de como seriam remuneradas pela disponibilidade.
Qualidade não poderia ser sacrificada pelo menor preço
Uma compra em grande escala pode gerar economia, mas também atrair fornecedores interessados apenas em vencer pelo menor valor.
Painéis de baixa qualidade podem apresentar degradação acelerada, falhas elétricas, infiltração, risco de incêndio e produção inferior à prometida.
O edital deveria exigir certificação independente e testes em laboratórios brasileiros.
Parte de cada lote seria selecionada aleatoriamente e submetida a verificações antes da instalação.
As garantias precisariam ser executáveis no Brasil. Não bastaria apresentar um documento emitido por uma empresa sem representantes, patrimônio ou estoque de peças no país.
Os fornecedores teriam de manter assistência técnica e componentes disponíveis por vários anos.
Contratos também poderiam reter parte do pagamento até que os equipamentos comprovassem determinado desempenho.
Reciclagem e descarte
Painéis solares possuem uma vida útil que normalmente alcança várias décadas, mas não são eternos.
O programa deveria definir desde o início quem seria responsável pela coleta e reciclagem.
Fabricantes e importadores poderiam contribuir para um fundo de logística reversa. Quando os módulos chegassem ao fim da vida útil, seriam recolhidos e enviados para instalações especializadas.
Vidro, alumínio, cobre e outros materiais podem ser recuperados. O processo, contudo, exige desmontagem, transporte e tratamento adequado.
Baterias precisariam de regras ainda mais rigorosas devido aos materiais químicos e ao risco de incêndio.
Sem planejamento, a expansão atual poderia se transformar em um grande volume de resíduos no futuro.
Riscos geopolíticos e cambiais
A concentração das compras na China criaria exposição a mudanças políticas, comerciais e logísticas.
Uma crise internacional, bloqueio marítimo, aumento do frete ou restrição de exportações poderia interromper o fornecimento.
O preço também dependeria do câmbio. Mesmo que o fabricante concedesse um desconto em dólares, uma desvalorização do real poderia anular parte da economia.
Os contratos poderiam utilizar entregas programadas, mecanismos de proteção cambial e estoques mínimos.
O Brasil também deveria manter fornecedores alternativos e desenvolver capacidade industrial própria.
O objetivo seria utilizar a escala chinesa para acelerar a expansão, não trocar a dependência de combustíveis importados por uma dependência permanente de equipamentos estrangeiros.
Como a proposta poderia ser implantada
A primeira etapa seria um estudo nacional de capacidade.
O governo identificaria onde existe demanda, disponibilidade de conexão, necessidade de reforço da rede e possibilidade de complementaridade com reservatórios.
Na segunda etapa, seria realizado um leilão piloto com quantidade limitada de equipamentos.
Os painéis seriam instalados em diferentes regiões climáticas para avaliar desempenho, transporte, instalação e manutenção.
A terceira etapa ampliaria as compras, mas somente depois da análise dos resultados.
O programa poderia adotar contratos anuais, evitando uma aquisição única. Isso permitiria aproveitar melhorias tecnológicas e reduzir o risco de comprar equipamentos que rapidamente se tornassem ultrapassados.
Ao mesmo tempo, seriam realizados leilões de transmissão, armazenamento e capacidade flexível.
Municípios e estados poderiam aderir voluntariamente às atas nacionais de preços, utilizando as condições já negociadas.
Consumidores privados participariam por meio de cooperativas, instaladores credenciados e linhas de financiamento.
O que não deveria ser feito
O acordo não deveria ser apresentado como uma solução isolada para todos os problemas energéticos do país.
Importar painéis sem ampliar a transmissão provocaria cortes de geração.
Reduzir impostos sem exigir contrapartidas poderia prejudicar a indústria brasileira.
Criar exigências nacionais impossíveis de cumprir elevaria os preços e atrasaria os projetos.
Financiar instalações sem avaliação técnica aumentaria a inadimplência.
Comprar exclusivamente de uma empresa criaria dependência.
Instalar sistemas sem prever manutenção e reciclagem transferiria o problema para o futuro.
Também seria um erro acreditar que as hidrelétricas resolveriam sozinhas toda a variação solar. Reservatórios são extremamente úteis, mas possuem limitações hidrológicas, ambientais e operacionais.
Uma oportunidade real, desde que exista planejamento
Um acordo de grande escala com a China poderia reduzir o preço dos painéis solares e acelerar a expansão renovável brasileira.
O poder de compra combinado de governos, empresas, cooperativas e consumidores criaria condições para negociar descontos que dificilmente seriam obtidos em milhares de pequenas encomendas separadas.
A redução seletiva de impostos poderia ampliar o benefício, principalmente nos componentes que o Brasil ainda não produz em quantidade suficiente.
Em troca, o país deveria exigir qualidade, garantia, reciclagem, investimento local e transferência gradual de tecnologia.
A resposta para a ausência de sol estaria na diversidade do sistema: hidrelétricas preservando água durante os períodos de forte geração solar, baterias respondendo rapidamente, linhas de transmissão conectando regiões e outras fontes fornecendo energia quando necessário.
Nos momentos de excesso, o Brasil precisaria armazenar, transmitir ou estimular o consumo produtivo. Caso contrário, parte da energia seria desperdiçada.
A proposta seria economicamente e tecnicamente possível, mas não consistiria apenas em comprar painéis baratos.
O verdadeiro acordo precisaria incluir geração, transmissão, reservatórios, armazenamento, indústria, financiamento, qualificação profissional e reciclagem.
Bem planejada, a parceria poderia transformar a abundância de sol e água do Brasil em uma vantagem energética de longo prazo. Mal executada, poderia produzir dependência externa, congestionamento da rede e milhares de equipamentos incapazes de entregar todo o seu potencial.